terça-feira, 29 de outubro de 2013

Marula



Leio gentes que dizem o que me sobra. Eu, cá, nem saberia verbalizar os terços desses tudos, mas meu objeto de desejo tem das línguas a mais afiada em mandar calar; dos dedos, os mais dedilhantes; dos cílios, os mais longos; das bocas, a mais desejável; dos violões de náilon, o mais acústico; dos trejeitos, os mais desengonçados; das pernas, as mais andantes; dos cheiros, o mais dó sustenido menor; dos olhares, o mais insonoramente revelador; e das presenças, a que mais acalma.
Meu objeto de desejo me acompanha, ainda que desacompanhe, me sorri e me faz feliz.
Para tantos incuidados desinclinados nas ruas, é apenas um aposto, para esta que sente e re-sente, se revela a cada dia mais fora, num externo aos fantasmas.
Não dentro, não consumindo, corroendo ou acabando com o que quer que seja a paz, como tantos destinos de passagem, mas ao lado, aos braços, aos pés, às barrigas, aos peitos e aos nossos pâncreas.
Meu corpo inteiro se amarela de um roxeado novo, se expõe ao sol das tardes pela sua mera vontade. 
Eu já não sei dizer não, já não saberia negar-lhe as luas, os anéis de Júpiter – seu planeta predileto –, os maiores campos de morango, ou todos os calores que minhas trinta almas puderem dar.
Meu objeto de desejo tem minhas paixões, meus segredos, a mim e a tudo que eu puder amar.

[...]
Zuri.
Carta ao meio.
29 de outubro de 2013

Nenhum comentário:

Postar um comentário