terça-feira, 5 de novembro de 2013

Sexta-feira



Ao meu objeto de desejo.

Eu noto, no meio das mais inexpressivas atividades do meu dia, enquanto me arrasto de volta para casa e as crianças jogam pedras na amarelinha, como você é, de tudo o que há no mundo, o que mais se distancia do ordinário.
Lembro, com pesar, que te ouvir chorar foi como ver um mar azul-de-céu que, de tão claro, engole pessoas, afoga jovens que se banham, mergulham e se esquecem de voltar. 
Assim, meu bem, ficam órfãos pais, mães, animais de estimação...
Aquele choro, como você, em nada ordinário, a tanto preso, me pareceu, me fez sentir no fundo. Um fundo de incapacidade, um fundo de nó, certeza em não querer estar mais ali, distante que era, então, de você.
Órfã.
Hoje, perto, tudo de mim é de você!
Que não seja esse, amor, jamais, então, nosso tom outra vez.
Nossa onda é gris!
Nossos dias enclausurados e curtos – nós que temos tanto, dias que tão rápido se tornam amanhãs – são a perfeita manifestação do acinzentamento dos azuis da vida.
Arrastamos as horas para adiar a invasão das gotas mal-amadas lá de fora. Tarde, sempre nos rendemos. Existe uma galáxia para onde, inevitavelmente, precisamos voltar.
Tão logo, sei, viverei cotidianamente com o que sente de triste e prefere não mostrar, o que de raiva teima em esconder de mim, com os hábitos de banho gelado em dias frios, camisetas de canções pré-adolescentes, discos de mal gosto ou de calar com obstinação até o que mereço ouvir (e mereço, sei, muito). Meus horríveis hábitos, esses só o tempo dirá, testemunharei sempre a meu favor, mas saiba, meu bem, sou das mortais a mais imperfeita.
Esqueça issos tudos e descanse, amor, repouse na recordação, porque ainda que arranquem, com a perversão concedida pelos semideuses que podem julgar e excluir, nossa coragem e nosso expor ao sol, de nós não tirarão os fluidos, tampouco apagarão as lembranças. Jamais! De mim, as lembranças de você, da precisão, da autoridade, da delicadeza, das composições, da extraordinariedade e da risada anasalada ao ver os gêmeos jogados no sofá. De você, as lembranças de mim, de como não gosto do sol de meio dia e devoro as nuvens gordas de estações chuvosas.
E de estações, bem meu, temos um tempo outono-inverno, porque tudo de nós são chuva, corpo e memória.
Eu sou sua raiva, sua contradição, sua irritação, sua mulher, seu amor!
Sua!
Zuri.
terça-feira 05.11.2013

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