terça-feira, 8 de abril de 2014

Sonhamento

Nessa tarde de terça de comer meia surdez, comecei pensando e tentando me convencer: "se ela não aceitar, vou deixá-la ir!". O pensamento logo se abriu para o mais evidente dos fatos: aceitando, ou não, as trilhas e cachoeiras, o frio e o meu corpo quente e nu noites a eito, nos seus braços é onde me saio melhor. E não há, dentre os medos de feras, serpentes,venenos ou desilusões, um que seja maior que o de você me perder da sua vida, uma vez que me viu chegar.
Lembro nossas conversas de cama e concluo que nossas doses de desejo e memórias são as mesmas. São os mesmos nossos ontens, e as sensações que colhemos deles.

Você, aí, é de passar mãos largas nas minhas costas e se agigantar em todo abraço. É de sair para acompanhar, de mandar. Volta e meia, o barulho único que posso ouvir, com meus cinquenta por cento, são as sementes de maçã se partindo no seu jeito violento de mastigar. Quando você mastiga: num quase nunca.
Eu, cá, sou de aconchegos felinos e olhares que te gritam, cotidiana e repetidamente, o que escolher ("por que não eu?"). Sou de rir de tudo, de obedecer. Meia e volta, o único barulho que você pode ouvir, com seus cem por cento, são minhas sandálias que se arrastam. Quando não levanto os pés: num quase sempre.

Pernas bambas de enumerar porquês (de ser você), destaco apenas o seu cheiro de felicidade - só isso, e isso é tudo, o sentido de, na vida, uma totalidade-. Desconsidere meus vícios de você e pense o peso, as bocas, os anos, o conforto, o vaso marrom, as listras, a cama, as brigas pelas quais vale a pena viver: eu sempre deixo meus sapatos espalhados pela casa, e a maldita toalha molhada insiste em se lançar das minhas mãos na cama.

Nivelemos os planos e, se tudo der certo, você nunca esquecerá o coentro,ou meu intelecto de caramujo que, quando não pela lentidão, pelo excesso de cores.

Foi com meus olhos que te deixei me chamar - "por que você me olha assim?" - e, das promessas que me restam fazer, eu, meus sapatos espalhados, minhas toalhas voadoras em água, meu macarrão e meus melhores olhares entramos na sua vida para nunca mais sair.

Amor, já temos, ao menos, as taças!

Zuri.
Ao meu objeto de desejo,trinta e uma semanas depois: 
não há racionalidade que possa extraviar uma carta de amor.

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