terça-feira, 6 de maio de 2014

Três vezes



Mês que vem a gente vai parir”
Cuidado. A primeira vez foi assim. Minhas queixas de dores no ouvido – que se estendem até hoje e me obrigam a te ouvir dizer, incansavelmente, “eu te avisei!”, todas as vezes que saio com más notícias do otorrino – se iniciaram. Você, prontamente, sumiu por alguns minutos e voltou com uma caixinha de remédios.
Sozinha em casa, quando tive folga da velha, por mais de uma semana não descansamos. Trocamos telefones e, quando vimos, dormíamos às quatro da manhã para acordar as quatro e meia, como fazemos até hoje e faremos por mais alguns anos. Agora, ao menos, reaprendemos a dormir.
Salva a calmaria do primeiro beijo, naquele inesquecível início de noite, vivemos, desde então, alimentadas da mais intensa paixão. Não resistimos a nós. Basta o mais despretensioso toque e transpiramos nossa mútua pertença – que ninguém tenha a má sorte de partir sem experimentar essa sensação que dá sentido a vida –.
No meio dessa gestação, alguns sangramentos. E árdua como só a vida é, me deu crises e te deu uma escolha a ser feita. As vias me obrigaram a crescer, a me tratar, e te deram a mim e, por mim (mas também por você), uma renúncia – mas ela não é pó, jamais será, porque nada pulveriza um grande amor –. Eu, ainda enquanto um dos lados, com você, nua, entregue, acolhida pelo que sabia ser temporal, fui levada, arrastada pela segunda vez, pela força que é se apaixonar por você e pelos seus cabelos brancos. No meio dessa segunda paixão, uma janela, um cigarro, seu corpo nu, suas costas largas, um coque, um vento tão tímido quanto eu e tão certo quanto eu sentir que você também sentiu.
Eu reclamava de solidão e você, depois de sumir alguns dias, voltou com uma caixinha do agasalho de braços e bocas, abraços e beijos que só você tem para dar.
Se nada pulveriza um ex amor, tampouco as ciladas do mundo pulverizam a continuidade e, hoje, no meio da primeira semana dos próximos quarenta anos, quase nove meses depois, aquecida na minha cama e um tanto raivosa com os setenta quilômetros que nos separam, fui surpreendida por uma caixinha de respeito e pesar sinceros, em mensagem, que levou de mim os resquícios de uma antiga mágoa.
Do que havia de passar, quase tudo já se passou. Do que de se escolher, sou eu quem está aqui e, dessa vez, não mais só, não mais temporal.
Me flagrei, pela terceira vez, apaixonada por você e, agora, nem tudo a serviço do próprio ato de me apaixonar, ou em resultado dos seus cuidados, mas em nome do amor que não podemos frear e que só aumenta desde aquele dia que trocamos olhares e não pudemos parar de nos viver.
Ao meu objeto de desejo.
27.04.14

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