você acha que todos os encontros
são o amor da sua vida. todas as pernas, todas as bocas, os sotaques, cabelos... até que, num dia nublado qualquer, entre outonos brasileiros que
não se definem bem, sob um teto ligeiramente transparente, alguém que se
percebia apenas pela sufocante delicadeza te olha e diz:
"por que você
me olha assim?"
a partir desse momento, não de
outro, não de grandes acontecimentos, não de mudanças planetárias – crianças
ainda morrem de fome, hipócritas ainda fingem reciclar o lixo, mulheres ainda
são violentadas, homens ainda têm medo do urologista, eu ainda reprovo em
morfologia – você percebe que não pode mais querer para ontem o amor da sua
vida.
“amor da minha vida”, não. não mais,
não outra vez.
amor do meu silêncio, amor das
minhas crises, do meu falar demasiado, dos meus (pre)conceitos. amor das minhas
formas, das minhas cartas, dos meus cortes, da minha hemorragia. amor da minha
vergonha, da minha exibição, dos meus complexos, dos meus dias de cão e da
minha paz.
amor da minha lealdade, do meu
peito, da minha garganta, das minhas veias, do meu ar e da minha fé.
“amor da minha vida”? não! amores
da vida eu já tive muitos. devaneadora romântica que sou, tantos que nem sei...
esse, porém, é amor de me achar.
amor das minhas contas para
dividir, do meu creme dental apertado ao meio, da minha coleção de filmes, dos
meus discos de artistas elitistas dos quais eu mesma falo mal, dos meus livros,
dos meus cortes de cabelo seguidos de arrependimento, das minhas filhas, do meu
guri, dos meus sonhos e da minha temperatura.
“amor da minha vida”? nem sei!
mas amor do meu medo e das minhas
declarações mais intensas, ainda que simplórias.
Zuri.
carta de amor.
06.11.2013
Singelo, porém intenso... Consigo perceber cada nota entoada, em cada palavra ao imaginar você verbalizando oralmente essa pergunta: "amor da minha vida?". Beijos com amor e carregados de imensuráveis saudades!!
ResponderExcluirGenial. Profundamente poesia e amor. Ultramodernamente romântico. Gostei, Zebeatifull!
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