quarta-feira, 6 de novembro de 2013

em minúsculas

ao meu amor.


você acha que todos os encontros são o amor da sua vida. todas as pernas, todas as bocas, os sotaques, cabelos... até que, num dia nublado qualquer, entre outonos brasileiros que não se definem bem, sob um teto ligeiramente transparente, alguém que se percebia apenas pela sufocante delicadeza te olha e diz:
"por que você me olha assim?"
a partir desse momento, não de outro, não de grandes acontecimentos, não de mudanças planetárias – crianças ainda morrem de fome, hipócritas ainda fingem reciclar o lixo, mulheres ainda são violentadas, homens ainda têm medo do urologista, eu ainda reprovo em morfologia – você percebe que não pode mais querer para ontem o amor da sua vida.
“amor da minha vida”, não. não mais, não outra vez.
amor do meu silêncio, amor das minhas crises, do meu falar demasiado, dos meus (pre)conceitos. amor das minhas formas, das minhas cartas, dos meus cortes, da minha hemorragia. amor da minha vergonha, da minha exibição, dos meus complexos, dos meus dias de cão e da minha paz.
amor da minha lealdade, do meu peito, da minha garganta, das minhas veias, do meu ar e da minha fé.
“amor da minha vida”? não! amores da vida eu já tive muitos. devaneadora romântica que sou, tantos que nem sei...
esse, porém, é amor de me achar.
amor das minhas contas para dividir, do meu creme dental apertado ao meio, da minha coleção de filmes, dos meus discos de artistas elitistas dos quais eu mesma falo mal, dos meus livros, dos meus cortes de cabelo seguidos de arrependimento, das minhas filhas, do meu guri, dos meus sonhos e da minha temperatura.
“amor da minha vida”? nem sei!
mas amor do meu medo e das minhas declarações mais intensas, ainda que simplórias.

Zuri.
carta de amor.
06.11.2013

2 comentários:

  1. Singelo, porém intenso... Consigo perceber cada nota entoada, em cada palavra ao imaginar você verbalizando oralmente essa pergunta: "amor da minha vida?". Beijos com amor e carregados de imensuráveis saudades!!

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  2. Genial. Profundamente poesia e amor. Ultramodernamente romântico. Gostei, Zebeatifull!

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