sábado, 16 de novembro de 2013

Duzentos e Dez

Assistindo ao concerto de Sharon Isbin que você me deu, nesse momento, ao som do único violão que é capaz de expressar toda a melancolia que reina no meu esconderijo e na minha alma, lembro que desde que nos reconhecemos (re-conhecemos!), ao que parecia, diante de tanta intimidade, uma vida inteira, essa é a primeira vez que passamos 24h sem nos falar. Dentre os últimos meses, é esta a primeira virada de sol em que não dissemos aquelas coisas bobas que agradam casais que se gostam. Rápido, já é manhã de novo, ou noite, ou madrugada, ou meio dia, ou três da tarde, e você, hoje, eu só tenho em sonhos e na memória.

– Sendo a máquina de “Brilho Eterno” real, não mais teria! Ah, como seria mais fácil! –

Era tudo quase displicente. Eu telefonava e, enquanto era torturada pelo chamar do celular – paciência nunca foi meu forte, era comum ouvir você dizer “calma, meu bem, calma!”, daquele jeitinho, eu imaginava, arregalando o olho e inclinando levemente a cabeça para o lado esquerdo, sempre para o lado esquerdo – era acometida, do nada, pela enorme alegria de ouvir “oi, bonitona!”.

Só você!

Que voz! Que tom! Que jeito! Que calor! Que par de pernas!

“Ah, ‘Selina’, já sei, já sei porque seus olhos são lindos, é que eles são espelhados!”.

Quem diz que há espelho nos olhos de alguém, no meio de uma conversa sobre, sei lá, feijão com catchup? Não eu! Não pessoas ordinárias como eu!

Só você, pessoa extraordinária! Você que gosta de sol, vai à praia e fica lá. Eu, hein?! Mas isso é lindo, como é lindo cada detalhe seu!

“Não, ‘Selina’, não vai assistir!”. Claro que não, meu objeto de desejo! Desde você, eu não me iludo achando que mando em mim e tudo que faço é envolver seu rosto com as minhas mãos (se é que lembra, ao menos disso, gostou um dia. Ou terá sido mais uma das minhas inúmeras ilusões?), te beijar e dizer “sim!”.

(Minha percepção está debilitada e não imagino que se recupere um dia).

Minha vontade de agradar era uma só, a alguém que, por acaso, dormiu no meu colo e roncou irritantemente. Hoje, o ronco irritante era tudo que eu queria ouvir – confissão, não pedido! –.

Será a culpa dessa extensão de corpo só sua, apenas sua – e, quando fugíamos, minha também! –? Ou será das composições? Ou, quem sabe, da temperatura? Talvez do cheiro que, de sustenido, no nosso refúgio, passava a um tom maior? Não, não, amor, a culpa é do seu jeito de me calar e desafiar, como ninguém jamais fez, todos os meus complexos! Por isso, obrigada!

A pergunta que não vai, dói agudo e me perturba(rá) sempre: quando foi que o cuidado se perdeu e o que era plano se tornou desconcerto e o que era desafio se transformou em abuso?

“Rastejar”?! “Rastejar”?!

– Planos: lugar que, naturalmente, só eu via –.

Meu instinto de preservação, afetadíssimo, responde, vez ou outra, “não, burra, o cuidar nunca existiu!”. A aspereza da vida, tão segura de si, tão cruel, no entanto, me faz pensar “existiu, idiota, mas era fase e fases são entregues a breves fins”.

Não importa!

Só você!

Na verdade, importa, sim, mas meu coração, que hoje bate mais rápido, percebeu que desde você só reage assim, com todos os “tuns” hiperacelerados. Ele bate e olha abobado no show, no trajeto, no dia-a-dia, na cama, no banho, nas fotos (nesse momento, na foto de nome “eu estou olhando pra você!”)... Como ser diferente se a pele mais macia, desde que o mundo é mundo (e que odeia cremes, diga-se de passagem), e a teimosia maior desde que há água in Earth é senhora de todas as verdades e minha?!

Pois bem! Pena, então, depois de tanto, e antes do maior salto, existir mentira nessas que, para mim, eram veracidades. Só para mim. Apenas eu estive lá. Lá, mais uma verdade, é onde ainda estou.

Mas o meu olhar, esse ainda é abobado, até quando foge, e é por isso a fuga, porque me apaixonei como uma garota de quatorze anos e, ainda catatônica, não sou capaz de não ser repetitiva. Como diz a canção, tão pré-adolescente quanto a minha faixa etária emocional “te ver e não te querer é improvável, impossível!”.

E os detalhes? Ei, Você, a palavra importa por ela mesma e nada escapa às minúcias!

Cartolando, de todo amor a gente herda cinismo, contudo, ao menos com a mentira, e apesar dela, vi que a vida fez de mim mais delicada e enfrentadora dos ímpetos de “por que isso?” e “por que aquilo?” ou acusações de “mas como, se ainda ontem você me disse o mundo?!”. As pessoas mudam, mas se eram ontem e hoje não são é porque nunca foram!

De tudo, anjo, que eu (des)esperava, não contava com a sua margem para erros. A cada ação, um novo susto, a cada falta de silêncio, uma nova decepção, a cada “mude!” um novo nó de inconformismo.

No fim das contas, a vida é um emaranhado de desilusões, luv, e quando uma acaba, é só a prévia da que virá – God, please, que seja a próxima um tantinho menor! –. O que nos re-prepara é o tempo. O tempo, amigo que, como a sua primeira canção de mim, “então passa”. Ela era mesmo minha?

Nem sei...

Era!

Sua Helena.

madrugada de chuva, saudade e ligação perdida. 15.11.2013

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