domingo, 23 de março de 2014

Eu te amo!

Em casa de se caramujar, que será feito da cara que se pronta?
É lindo isso de seres assim, desse jeito compositante sustenido, na concha onde a gente se encolhe para se mostrar.
Olho cor de nem sei, mãos de tocar, cheiro de tudo que, de tão entrante em cada poro, transmuta o ar em tintas indissolúveis.
Minhas trinta almas entrariam em você até tomar a tua para o si de cada uma delas. Meu corpo entraria no teu até não ser mais de outro e ser só. Um só de alma que são duas – “eu, sozinha, sou duas!” –.
Tua boca de prosa metafórica diz e diz e canta e compõe em dó, em sustenidos e menores, e, para mim, um nó.
A minha língua, com suas dezenas de almas, não sabe pronunciar e quando fala, ainda assim, não diz.
Eu peço neutros e nomes, substantivos adjetivantes, mas nem a mais sagrada das línguas te daria o que a minha quer  te dar: verbos, conjunções de sede, águas de se banhar, assunto semanas a fio, calor, acordes dissonantes para beber...
Ah, me vem um nó outro, uma trava na garganta que eu não sei cuidar, tirar, não ter.
Todos os gritos, passos, corridas. Todos os autofalantes, os gemidos, quaisquer que sejam eles, as dores, o sangue, as crianças, o vento, a chuva... Tudo.
Nada de tudo que há daria som a essa língua que não sente dizer o que acha. E, de tanto que sente muito, não diz.
Todas as frases piegas; todas as cartas de amor; todos os beijos em conversas de dias e dias e até – e sempre por eles – os beijos que não se beijaram; nada de tudo cortante, tocante, discursante – nada ante o tudo do inteiro: os mundos –; nada de todas as luzes, nem de quando elas se apagam; nada dos meus pés, coração, ou das minhas vísceras.
Nada dos meus segredos, nada das minhas publicações. Nada do meu melhor sorriso, da minha mais intensa e sincera angústia. Nada de cada órgão da minha emoção sabe dizer quanto.
“Quanto?”.
Tudo! Tão tudo que nada. Não de não existir, existe tanto que nada de gostar de mar, nada que dura águas e mais águas rasas, profundas.
(Ah, Deus, alivie-me desse desalinho!).
Todos os espaços de mim são teus, eu preciso respirar a minha vida que, hoje, já não é senão a que me dás.
A minha inteira vida, o lado maior de mim, gastaria os séculos sem poder dizer isso que está aqui tão do lado de dentro que todos os “eu te amo!” não significam.
Os hinos que louvam os deuses, os mitos gregos, os instrumentos musicais, as águas de litros dos oceanos, os filmes, os dramas, as bocas que se encaixam assim (num encaixe perfeito, como só a tua em mim) e as mãos que precisam se conter.
Os monstros, a fome, a mais suja das doenças; o leite quente de mãe. Os voos das aves e dos poetas, das poetas, dos músicos, das músicas, das temperaturas glaciais e dos incêndios  mais devastadores.
Todas as dores de parto. Toda sequidão daquela que não pode parir. Todo desamor de pai. Todo agudo das vozes mais estridentes. Todo frio noturno das maiores florestas. Todas as semanas de escarcéu carnavalesco.
Ah, todos os homens, mulheres e terceiros sexos. Os meus roubos e plágios e crimes, pecados e traições. Os cães, as rachaduras nas paredes da minha casa. O meu ar.
Todo o talento dos mais renomados gênios e valor dos prêmios mais refinados. Todo o meu discurso vulgar, a minha religião, a boemia do mundo, o azedo dos campos de morango, as reticências do infinito que eu te daria se fosse poeta.
Tudo!
Eu tão somente sei sentir de encostar. Aqueles dedos nos ombros que só a gente sabe. A onda a nossa frente, no banco de abraços sob o olhar da decência.
Nós e o mar.
Sei sentir os pontos e quadrados onde nossas vidas que já tanto encontraram outros e outras, se acharam, enfim, em nós.
Não sei dizer ainda – aquela dor de não achar é cortantelatente – mas não diga que eu não sei sentir que isso é amor.

Zuri.
Amor (re)sentido por Luciana S. S., em vida de não se ler.
14.09.2013

sexta-feira, 21 de março de 2014

Pontes



Quando te viajei, previ meu futuro. Coisa linda. Assinalados pores de sol, astros pintados de vermelho aberto: lua de Itapuã.

Não sabe do que veio ao mundo entre nós. Do que ventou no último romance gravado ao Alcatel preto e carmim: voz de Você.

Velho é o fim do que seria o se, se ses fossem menores. Tempo correnteza, quis para mim Você e daqui não te levou. Mas vai. De ires são as correntezas.

E Eu, de ir em garantias, lembro os juazeiros, que morrem de pé, como de pé se plantam amores: volto sempre por ser livre, e por ser livre, voo.

Zuri.
16.03.2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

Eu, passado menine

Dizem todas as vozes, em coro: “Vai passar!”.

Para Chico, vai passar na avenida um samba popular. Para uma compositora conhecida minha, vai passar a boca e chegar, quem sabe, o calor – calores tantos de bocas que menine não sabe contar... Para a doce Lílian, que ouve, obrigada pelos ossos do ofício, minhas queixas tantas, vai passar a transformar-se o amor. Para a preta thaítica, que não é alguém, mas um estilo de vida, vai passar a esquizofrenia.

Sem mais isso de morrer de afeição, que passem todos os indumentos, todas as peças, todas as roupas, todas as máscaras, tudo que me é alheio, e reste apenas a nudez. Que o todo se passe em ferros quentes, como quentes têm sido meus dias de recuperação. Ventila dor. Vidas vividas, lenços umedecidos, pontos, ligações. Incisão inflamada como inflamado está o ego, o olho, a mulher eu. Ventilador, quando tudo é de lembrar, até se perder.

Vai passar porque tudo passa e Otto, para distrair, fala de dp...

Cessado o cavar de dores, com o silêncio finalmente bem vindo, descontinuada a vitimização mútua, detidos os choros e cadenciada a respiração (1, 2, 3, 4, 10...), que, a mim, sobre a nudez.

Felizes para sempre sejam os sujeitos não identificados, os discos voadores e o cavalo de Arthur!

E eu nua...
Despir-se é o que faz quem vê o fim.
Eu me dispo.
Zuri.
05.03.2014

19:05

segunda-feira, 3 de março de 2014

carta abortada

... e quando eu tinha cinco anos, luciano me deu uma pedrada no olho. “amor, luciano era surdo”. não que isso tenha a ver com o assunto, mas me lembra que eu sei falar libras, então, na falta de coisas para admirar em mim, pense nisso porque o inglês não tem dado certo!

a questão é, sem aquela pedra, aquele pivete e eu naquela posição – que, é claro, não sei qual foi, mas acho ótima por ter me salvado da cegueira e evitado um pseudônimo como “zuri, a caolha” –, sua cicatriz favorita não existiria e o olho esquerdo não teria, também, porque ser dono da sua predileção.

no fim das contas, a sensação é de que foi tudo por causa de você: nascer em setembro, cair da bicicleta, não trocar todos os dentes de leite, odiar sérgio malandro... e eu não estou, de todo, só em pensar no meu amor como razão para o inteiro do mundo: há coisas djavânicas de via láctea a dinossauros. outra coisa a admirar é que eu sei fazer aquela cara de quem entende djavan...

retalhada, de cama e sem grandes banhos, é pelas mãos que antes eu conhecia por prazer que sou limpa, trocada, penteada, cuidada. sem grandes disciplinas, é pela mais doce e rígida das vozes que sou repreendida, como criança, com “você não pode comer isso, você não pode fazer aquilo”, ou pela mais irritante das sentenças: “não falo mais nada. depois não diga que eu não avisei!”.

pensar em pedradas aos cinco me mostrou, e os últimos dias, vinte anos depois, me fizeram concluir que, às vezes, estar retalhada, de cama e sem grandes banhos é, além de uma pedrada legal, um grande acontecimento na vida. na minha, ao menos, isso uniu no meu leito, no meu fluxo de recuperação e na balburdia do meu quarto duas mulheres da minha vida, uma que diz que me ama desde criança e me limpou quando bebê, outra que diz que ama há uma gestação e me lava os cabelos hoje.

os últimos dias são, da minha vida, os melhores, mais horizontais e felizes, e, não fosse pela realização de um antigo sonho ou pela desculpa para dormir o dia inteiro, seria, ao menos, pela tua presença neles.
zuri.
ao meu objeto de desejo.

27.02.2014