Em casa de se caramujar, que será feito da cara que se pronta?
É lindo isso de seres assim, desse jeito compositante sustenido, na concha onde a gente se encolhe para se mostrar.
Olho cor de nem sei, mãos de tocar, cheiro de tudo que, de tão entrante em cada poro, transmuta o ar em tintas indissolúveis.
Minhas trinta almas entrariam em você até tomar a tua para o si de cada uma delas. Meu corpo entraria no teu até não ser mais de outro e ser só. Um só de alma que são duas – “eu, sozinha, sou duas!” –.
Tua boca de prosa metafórica diz e diz e canta e compõe em dó, em sustenidos e menores, e, para mim, um nó.
A minha língua, com suas dezenas de almas, não sabe pronunciar e quando fala, ainda assim, não diz.
Eu peço neutros e nomes, substantivos adjetivantes, mas nem a mais sagrada das línguas te daria o que a minha quer te dar: verbos, conjunções de sede, águas de se banhar, assunto semanas a fio, calor, acordes dissonantes para beber...
Ah, me vem um nó outro, uma trava na garganta que eu não sei cuidar, tirar, não ter.
Todos os gritos, passos, corridas. Todos os autofalantes, os gemidos, quaisquer que sejam eles, as dores, o sangue, as crianças, o vento, a chuva... Tudo.
Nada de tudo que há daria som a essa língua que não sente dizer o que acha. E, de tanto que sente muito, não diz.
Todas as frases piegas; todas as cartas de amor; todos os beijos em conversas de dias e dias e até – e sempre por eles – os beijos que não se beijaram; nada de tudo cortante, tocante, discursante – nada ante o tudo do inteiro: os mundos –; nada de todas as luzes, nem de quando elas se apagam; nada dos meus pés, coração, ou das minhas vísceras.
Nada dos meus segredos, nada das minhas publicações. Nada do meu melhor sorriso, da minha mais intensa e sincera angústia. Nada de cada órgão da minha emoção sabe dizer quanto.
“Quanto?”.
Tudo! Tão tudo que nada. Não de não existir, existe tanto que nada de gostar de mar, nada que dura águas e mais águas rasas, profundas.
(Ah, Deus, alivie-me desse desalinho!).
Todos os espaços de mim são teus, eu preciso respirar a minha vida que, hoje, já não é senão a que me dás.
A minha inteira vida, o lado maior de mim, gastaria os séculos sem poder dizer isso que está aqui tão do lado de dentro que todos os “eu te amo!” não significam.
Os hinos que louvam os deuses, os mitos gregos, os instrumentos musicais, as águas de litros dos oceanos, os filmes, os dramas, as bocas que se encaixam assim (num encaixe perfeito, como só a tua em mim) e as mãos que precisam se conter.
Os monstros, a fome, a mais suja das doenças; o leite quente de mãe. Os voos das aves e dos poetas, das poetas, dos músicos, das músicas, das temperaturas glaciais e dos incêndios mais devastadores.
Todas as dores de parto. Toda sequidão daquela que não pode parir. Todo desamor de pai. Todo agudo das vozes mais estridentes. Todo frio noturno das maiores florestas. Todas as semanas de escarcéu carnavalesco.
Ah, todos os homens, mulheres e terceiros sexos. Os meus roubos e plágios e crimes, pecados e traições. Os cães, as rachaduras nas paredes da minha casa. O meu ar.
Todo o talento dos mais renomados gênios e valor dos prêmios mais refinados. Todo o meu discurso vulgar, a minha religião, a boemia do mundo, o azedo dos campos de morango, as reticências do infinito que eu te daria se fosse poeta.
Tudo!
Eu tão somente sei sentir de encostar. Aqueles dedos nos ombros que só a gente sabe. A onda a nossa frente, no banco de abraços sob o olhar da decência.
Nós e o mar.
Sei sentir os pontos e quadrados onde nossas vidas que já tanto encontraram outros e outras, se acharam, enfim, em nós.
Não sei dizer ainda – aquela dor de não achar é cortantelatente – mas não diga que eu não sei sentir que isso é amor.
Zuri.
Amor (re)sentido por Luciana S. S., em vida de não se ler.
14.09.2013
Amor (re)sentido por Luciana S. S., em vida de não se ler.
14.09.2013