segunda-feira, 3 de março de 2014

carta abortada

... e quando eu tinha cinco anos, luciano me deu uma pedrada no olho. “amor, luciano era surdo”. não que isso tenha a ver com o assunto, mas me lembra que eu sei falar libras, então, na falta de coisas para admirar em mim, pense nisso porque o inglês não tem dado certo!

a questão é, sem aquela pedra, aquele pivete e eu naquela posição – que, é claro, não sei qual foi, mas acho ótima por ter me salvado da cegueira e evitado um pseudônimo como “zuri, a caolha” –, sua cicatriz favorita não existiria e o olho esquerdo não teria, também, porque ser dono da sua predileção.

no fim das contas, a sensação é de que foi tudo por causa de você: nascer em setembro, cair da bicicleta, não trocar todos os dentes de leite, odiar sérgio malandro... e eu não estou, de todo, só em pensar no meu amor como razão para o inteiro do mundo: há coisas djavânicas de via láctea a dinossauros. outra coisa a admirar é que eu sei fazer aquela cara de quem entende djavan...

retalhada, de cama e sem grandes banhos, é pelas mãos que antes eu conhecia por prazer que sou limpa, trocada, penteada, cuidada. sem grandes disciplinas, é pela mais doce e rígida das vozes que sou repreendida, como criança, com “você não pode comer isso, você não pode fazer aquilo”, ou pela mais irritante das sentenças: “não falo mais nada. depois não diga que eu não avisei!”.

pensar em pedradas aos cinco me mostrou, e os últimos dias, vinte anos depois, me fizeram concluir que, às vezes, estar retalhada, de cama e sem grandes banhos é, além de uma pedrada legal, um grande acontecimento na vida. na minha, ao menos, isso uniu no meu leito, no meu fluxo de recuperação e na balburdia do meu quarto duas mulheres da minha vida, uma que diz que me ama desde criança e me limpou quando bebê, outra que diz que ama há uma gestação e me lava os cabelos hoje.

os últimos dias são, da minha vida, os melhores, mais horizontais e felizes, e, não fosse pela realização de um antigo sonho ou pela desculpa para dormir o dia inteiro, seria, ao menos, pela tua presença neles.
zuri.
ao meu objeto de desejo.

27.02.2014     

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