Thais,
Dezenove de janeiro chegando é sempre uma nova crise para
mim. O que posso te dizer? O que tenho a falar que você já não saiba? Como me
atrever a escrever à alguém tão intensamente dada a fragmentos? Mas já que
dissertamos sem perceber, usamos argumentos e situamos nosso ponto de vista a
todo o tempo, sei que não posso, mesmo em uso de todo o meu léxico, precisar
quem é, ou o que representa Thais para mim, mas vou tentar fazê-lo em nome do
que já se tornou um ritual em nossas comemorações.
Você é uma excelente dançarina de pagode, fato! Se o
doutorado não der certo, se jogue!
Você é doce, meiga, escandalosa, ouvinte, falante...
Você é tátil e visivelmente bela. É sedutora! Faz um
cuscuz como ninguém! Tudo, não necessariamente nessa ordem.
No entanto, quando encontrei seus longos cabelos e seu
olhar encantador de estranheza, que não entendia, ao certo, o que via, quando
me olhava, além do seu sorriso insistente que adoro, minha admiração fincou
raízes mesmo foi na sensação das coisas invisíveis, no que, de verdade, me
convoca a viver suas cores. Esses sim são seus maiores encantos.
Eu te admiro desde a sua mais sutil exibição, quando suas
suavidade e meiguice se agigantam, até a brutal postura crescente de quem sabe
defender seus ideais.
Você é decidida, perseverante, determinada, dona de
opiniões e discursos coerentes e fortes que, não raro, me fazem discordar, mas
não deixam de me surpreender.
Você é tanto de tanta coisa que torna mais fácil detalhar
o que não é.
Você não é rasa, tampouco passageira. Seus laços não são
superficiais, nem efêmeros, em vez disso, atingem níveis pouco alcançáveis de
intensidade e emoção.
Emoção essa que já decepcionou, frustrou, destruiu
amizades (“eu vi a placa, ah que eu mato aquela surfistinha”!). Emoção ora
raivosa, ora triste, ora confusa por causa da ausência ou da possibilidade
dela. Emoção que, em resultado da reação de quem não te conhece, te fez chorar
no chão do café, no carro da virada, no ombro de Josefina, onde eu nem estive.
Mas não liga não, a gente sempre aprende, depois de se
gastar, que “o que os outros pensam a nosso respeito não é da nossa conta” e o
mais importante é que essa mesma emoção, esse mesmo impulso, na maioria dos
seus dias e relações, se desdobra numa expressão transformadora, uma espécie de
hipertexto sentimental que culmina na coletividade, na união de completos
desconhecidos, numa enorme e agitada teia de amor que te faz tão querida.
Você é imensamente amada, minha amiga! É linda! É alguém
com quem eu sei que posso contar!
Lembro
quando perdemos, tão tristes, mas sempre esperançosas, nossas vozes cantando
uma à outra: “não chore ainda não que eu tenho a impressão que o samba vem
aí...”. E sempre vem! Eu confio em você e sei que ele vem!
Ah, Thais,
além de saber, você precisa ver, tocar, sentir o apresso tamanho que tenho
pelos dramas, histórias e grandes alegrias que permeiam os percursos transados
das nossas vidas e configuram essa nossa colcha de retalhos cheia de choros
descabidos em bares, noitadas, risadas impróprias, neuroses estranhas,
bobagens, conquistas, ânsias, crises, paizões, juventude e amor.
Outrora
você representou o empurrãozinho na madrugada: “vamos pra lá agora, e Adriano
dirige!”.
Representou
a insatisfação com um toque de impotência: “já tá assim de novo [...]?! você
não merece isso!”.
Lembra
aquela época em que chorona me era quase um codinome? Roseri que o diga...
Pois é,
menina Dultra, passado o tempo de dores e de “amores mal lavados” é importante
lembrar que nem sempre nossas lágrimas foram de tristeza. Muitas delas foram
causadas pela sensação de um novo tempo, caíram pela certeza de progresso,
brotaram da mais otimista felicidade!
É por tudo
isso, Thais, que hoje, no meu templo de largos sorrisos, você representa o
ressoar polifônico de uma grande amizade. Amizade nem sempre a todo vapor, nem
sempre presente em forma física, nem sempre disposta a ouvir repetitivos
lamentos, mas verdadeira. Hoje, sou convicta de que o é, porque, mesmo em
diferentes fases e distâncias, não desaparecem as razões e raízes profundas que
conduziram sua criação e teceram-na a esse modo torto e confortável em que ela
é.
Brindemos
a nós, a nossa música, a esse encontro, ao seu dia, a nossa amizade e a esse
olhar!
Zuri.
Dia de aniversário, noitada
2012.
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