terça-feira, 9 de julho de 2013

Menina Dultra

Thais,

Dezenove de janeiro chegando é sempre uma nova crise para mim. O que posso te dizer? O que tenho a falar que você já não saiba? Como me atrever a escrever à alguém tão intensamente dada a fragmentos? Mas já que dissertamos sem perceber, usamos argumentos e situamos nosso ponto de vista a todo o tempo, sei que não posso, mesmo em uso de todo o meu léxico, precisar quem é, ou o que representa Thais para mim, mas vou tentar fazê-lo em nome do que já se tornou um ritual em nossas comemorações.
Você é uma excelente dançarina de pagode, fato! Se o doutorado não der certo, se jogue!
Você é doce, meiga, escandalosa, ouvinte, falante...
Você é tátil e visivelmente bela. É sedutora! Faz um cuscuz como ninguém! Tudo, não necessariamente nessa ordem.
No entanto, quando encontrei seus longos cabelos e seu olhar encantador de estranheza, que não entendia, ao certo, o que via, quando me olhava, além do seu sorriso insistente que adoro, minha admiração fincou raízes mesmo foi na sensação das coisas invisíveis, no que, de verdade, me convoca a viver suas cores. Esses sim são seus maiores encantos.
Eu te admiro desde a sua mais sutil exibição, quando suas suavidade e meiguice se agigantam, até a brutal postura crescente de quem sabe defender seus ideais.
Você é decidida, perseverante, determinada, dona de opiniões e discursos coerentes e fortes que, não raro, me fazem discordar, mas não deixam de me surpreender.
Você é tanto de tanta coisa que torna mais fácil detalhar o que não é.
Você não é rasa, tampouco passageira. Seus laços não são superficiais, nem efêmeros, em vez disso, atingem níveis pouco alcançáveis de intensidade e emoção.
Emoção essa que já decepcionou, frustrou, destruiu amizades (“eu vi a placa, ah que eu mato aquela surfistinha”!). Emoção ora raivosa, ora triste, ora confusa por causa da ausência ou da possibilidade dela. Emoção que, em resultado da reação de quem não te conhece, te fez chorar no chão do café, no carro da virada, no ombro de Josefina, onde eu nem estive.
Mas não liga não, a gente sempre aprende, depois de se gastar, que “o que os outros pensam a nosso respeito não é da nossa conta” e o mais importante é que essa mesma emoção, esse mesmo impulso, na maioria dos seus dias e relações, se desdobra numa expressão transformadora, uma espécie de hipertexto sentimental que culmina na coletividade, na união de completos desconhecidos, numa enorme e agitada teia de amor que te faz tão querida.
Você é imensamente amada, minha amiga! É linda! É alguém com quem eu sei que posso contar!
Lembro quando perdemos, tão tristes, mas sempre esperançosas, nossas vozes cantando uma à outra: “não chore ainda não que eu tenho a impressão que o samba vem aí...”. E sempre vem! Eu confio em você e sei que ele vem!
Ah, Thais, além de saber, você precisa ver, tocar, sentir o apresso tamanho que tenho pelos dramas, histórias e grandes alegrias que permeiam os percursos transados das nossas vidas e configuram essa nossa colcha de retalhos cheia de choros descabidos em bares, noitadas, risadas impróprias, neuroses estranhas, bobagens, conquistas, ânsias, crises, paizões, juventude e amor.
Outrora você representou o empurrãozinho na madrugada: “vamos pra lá agora, e Adriano dirige!”.
Representou a insatisfação com um toque de impotência: “já tá assim de novo [...]?! você não merece isso!”.
Lembra aquela época em que chorona me era quase um codinome? Roseri que o diga...
Pois é, menina Dultra, passado o tempo de dores e de “amores mal lavados” é importante lembrar que nem sempre nossas lágrimas foram de tristeza. Muitas delas foram causadas pela sensação de um novo tempo, caíram pela certeza de progresso, brotaram da mais otimista felicidade!
É por tudo isso, Thais, que hoje, no meu templo de largos sorrisos, você representa o ressoar polifônico de uma grande amizade. Amizade nem sempre a todo vapor, nem sempre presente em forma física, nem sempre disposta a ouvir repetitivos lamentos, mas verdadeira. Hoje, sou convicta de que o é, porque, mesmo em diferentes fases e distâncias, não desaparecem as razões e raízes profundas que conduziram sua criação e teceram-na a esse modo torto e confortável em que ela é.
Brindemos a nós, a nossa música, a esse encontro, ao seu dia, a nossa amizade e a esse olhar!

Zuri.
Dia de aniversário, noitada 2012.



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