sábado, 2 de fevereiro de 2013

Carta de enviar.

Sinhá Lane,

Faz tempo que a gente não se vê, que quase fiz um soneto, mas nem sei. Com poesia não me dou assim.
Se lembra que abraça quando não sabe o que dizer, lembra que bem sei tentar falar e, quando não, da minha janela entra um vento que diz sim.
Tudo é transição, dinamismo e movimento, desde a sua reclusão temporal, até a ânsia de querer mais e ter na vida sabor de novo.
Tudo aqui é sobre nós e nosso mar aberto, nossa primavera de respeito, risadas, de olhos infantis que, num processo conjunto, querem se entender, se conhecer.
Se o vento manda falar de lua, de crescimento, de impulso otimista mútuo, ambas se transformam. Se nos manda falar de anos, temos pouco mais que seis, mas guardamos experiências dentro dos nossos sapatinhos de tricô, porque a vida é mais que translação, lua, é história, construção. Se de amor, esse é nosso plano. De juventude, nosso reino. De independência, nosso caminho. Fato é que não vivemos demais, resta uma longa estrada ainda, até nos enxergarmos como a velha rabugenta e sábia que guardo em casa.
Chatas nós já sabemos ser, e partimos, e sumimos. Falo de nós, porque sei que nosso tempo para e passa, outra vez. A gente volta. É só o momento de aprender a andar só, por um caminho bom.
Na afinidade célere, na troca de livros, no silêncio de meses, a alma está incluída e é dela, se não para ela, também, que se fala.
É, de novo e sempre, tempo, lua.
Só a gente sabe de nós o que ninguém pode questionar, de corpo e de coração.
De lua é você!
Toda qualidade de franqueza, sensualidade, cuidado e inteligência, é de lua. O medo do desconhecido também.
O frio na barriga, a falta de ar e a vontade desenfreada que ainda não veio, “não se afobe não que nada é pra já”, uma hora vem. E com o fim deles, nada de guardar decepções e mágoas, em vez disso, cultivemos o aprendizado, a resiliência que brota de toda relação.
A vida é de fases, então vai sambar, vai sair pra rua, menina! Fases como a lua, ora terna, ora tosca, ora minguante, ora cheia, ora Cris. Vai se fazer mulher, lua!
Sinta a vibração e, ternamente, o abraço, porque eu te adoro e faz tempo que a gente não se vê.
Zuri.

Camaçari, verão 2012.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Carta de ficar.

Caitano,

Quisera eu, meu desejo, poder criar um submundo particular onde o discurso condiga com a prática.
Ele seria perfeito!
Nele, pessoas seriam vistas e quistas, genuinamente, como tais. Não seria necessário me esconder nos discursos pré-moldados, arquitetados para, ora aproximar, ora afastar a essência do que sinto.
Como em bastidores, numa versão intimista da própria coisa monstruosa de existir, ainda com a falta de você, deixei de questionar e aceitei que fui, também, calmante e excitante, mas no submundo particular inventado, eu acharia o lugar onde o silêncio com nada se pareça, onde eu pudesse, sem julgamentos e transtornos, apenas dizer.
Nesse submundo, fingir não seria preciso. Eu poderia assumir essa morte de dor que tenho agora, pra viver, depois, um lugar de paz.
Quisera eu, nele, poder querer.
Mas eu fui nossas conversas caladas, o zumbido irritante do seu silêncio maduro, da sua paciência, do seu susto com a minha loucura, todas as vezes que a minha quietude se desfez.
Medo, insegurança...
Fui o ato da procura, a espera cansada e a iniciativa que deram nos nervos.
Esse nó, meu deus, na garganta, essa puta de uma noite vazia num bar, lá, nada disso existiria.
Eu seria, lá, Caitano, só a impressão do seu jasmim delicado, com os cabelos ao vento. Sua Flor.
Sem perdição, quando não, quando se, sempre que talvez. Sem choro doído.
Em dias de sol, seríamos um riso eufórico, um cheiro intenso da novidade que veio um ao outro.
Seriam sinceros, pensamento e fala.
Sem tormento, só paz!
A supraeu sem fake.
Lá!
Depois.


Zuri.

Camaçari, dias 2011.

Eu te amo?


Caitano,

Parênteses, dentro de parênteses, te confundem tanto que já não há o que dizer.
Profusão de acontecimentos, sentimentos. Abundância de acaso.
A palavra é a mesma, repetida. Mais?
Veja além. Além das estranhezas e expectativas.
Vamos desconstruir limites e, só assim, saberá do que se tratam os parênteses.
São estrábicos becos construídos no mundo que eu criei para te guardar, que se fez de
causas e consequências. Brechas para discernir, caminhos a optar. Mas nunca o parêntese
será, simplesmente, uma sequência.
E quem determina que seja o fim?
Eu te amo!

Zuri.


Uma casa, outono 2011.

Seu olhar.

Oliver,

Buscamos sentidos demais. Vivemos de muito. Alto-falantes, deduções, conclusões confusas, em vez de toques, olhares e nada além.
Muito prendi, engoli orgulhos e próprios amores. Tanto tentei amar livremente que fiquei. Tanto que te quis e fiz, e vi e dei e fracassei...
Tanto recebi de apetites à mesa e na cama, vivendo bebadamente o desencontro, os calos do som e os pés que se enroscavam embaixo dos lençóis, buscando calor.
Tanto colhi dos seus lindos olhos tão pretos, nessa travessia de línguas e cheiros, que achei que bastasse. Mas como me bastaria agarrado a angústias?
A poesia não via, mas não havia como me tocar sem fazer de mim apenas uma delas.
O sal dos anos que te dei, ora em carne, ora em rancor, me consome aos poucos. Tão longe que, em vão, tento voltar aos tempos da nossa música, onde éramos e podíamos ser nós. Você comigo, nosso momento, em tempos de corações cansados.
É imprescindível o soluçar de arranhões que a saudade não apaga? Saudade infinita que , por todos os lados, se estende.
Fizemos de tudo, por tantos tempos, não mais que uma farsa, uma explosão tão grande de cores, que eu pouco soube.
Cedi, sim, a excessos e vaguei no meio da noite à, com ofensas, te encontrar, lá. Dolente. Ainda assim, tanto me fiz feliz que, de um todo, me curvei às tuas vontades. Tanto gosto e vida, emoção e bem querer me tinha que machucava, mas eu queria mais.
Ah, meu amor, meu bem, meu bem, meu bem, por que caricaturas a mim? Por que me toma em enganos? Por que não me toma se tanto sabe, ao fundo, do desejo que atribuo à imagem que tenho criado de ti?
Hoje o deslumbre da lua, com seus clarões, me lembra dos dias de paz, seguidos da estação onde até hoje te espero, onde no infinito de mim, esperarei.
Meu peito apertado ama de um amor tão grande que melhor me é lembrar que molhamos nossas bocas antes de renunciar a nossa vida de momentos.
Salgado, frio.
E quando fiz, desafinei. Quando lembro, dói, quando a dor para, sigo a experimentar o universo de possibilidades que me cerca, sem esquecer, ou a não lembrar que te amei, porque tanto cá e só te amo!
Hoje fechamos, separamos, fizemos de nós no fim do fim, enfim um fragmato. Um adeus.
Attraverssiamo!
Zuri.
Camaçari, outono 2011.





Náusea.

Oliver,

Em estado de abertura dos frags e fechamentos, até aos efeitos deliberadamente clichês, pego meu pouco dinheiro, saio, tomo uma tequila barata pra tentar lembrar os desígnios de (falsa) moral que me restam e me mandam afastar você.
Não posso. Bebo tanto que, de novo, me dou.
Minha inteligência emocional está afetada por alguma razão que até eu desconheço. Essas quatro ondas de fumaça, bocas e cabelos me instigam e, logo em seguida, me deprimem.
Tudo errado.
Muitos vínculos esquizowhatever, muitos vômitos sem ver, sem conhecer.
Tudo rodando, girando em sensações quase místicas.
Tive visões, explanações abrangentes de olhar no chão, de cabeça para baixo, no teto. Poder de segurar firme sua mão e atravessar paredes. Ou atravessá-las só, sem você.
Por dois minutos, ou cem horas, as pernas da ingenuidade se abriram para mim. E eu vi. Senti tudo, de rancor a altos prazeres voyerísticos. Percebi o cheiro de tudo que não se pode confiar. Ouvi todas as projeções da voz do que faz mal.
Expeli, cheiro, todo o resto de caos que se habituou a morar em mim.
Comi, vomitei.
Desconjuntei, tive mau contato.
O corpo não mais, mas as ideias masturbatórias ainda se mexiam...
Já é tempo de nem estar mais ali.
Você passou. Que venha agora a calmaria, o tempo de paz.
Zuri.

Um dia depois, primavera 2011.

Inteiros.


Oliver,

Queria poder te tocar em sua solidão. Quanto mais o conheço, mais percebo que não existem regras, nem brecha onde eu possa entrar, deitar minhas palavras.
Caminho pelas ruas da cidade, ora querendo te encontrar, em outros tempos, suando, correndo, fingindo tão bem que não quero te ver e até me convenço.
Te olho de longe, atravesso a rua, escrevo cartas extensas que não lerá e, se ler, nem saberá o nome. Jamais dirá ser o seu. Ninguém que eu não queira o fará.
Ando, tanto que me escondo na caixa de não te querer, me sabotando, desconhecendo, misturando um reflexo que nunca foi meu.
Congestionou. Demais é muito também.
Eu acordo com seu corpo ao meu lado. Mas quem seria? Quem é ela que se fez você, que me rouba o direito do “eu aceito!”? Quem são todas elas, Oliver?
Ah, portas sempre abertas...
Aquele pé de laranja lima que cheira logo cedo, antes do sol. Enquanto isso, me vou do seu colo, no meio do dia, arrastando comigo mais marcas, digitais por toda a extensão desse meu destino de corpo só.
É tanto, ou tão pouco, ou ar de nem sei...
Acontece que não aprendi, cheiro, a dar metades de mim, não sei viver sem ser inteira, feita da fome, de choro, de risos.
Não posso com isso, desaprendi a te olhar sem invadir, dizer sem mergulhar, viver sem planos, escrever contido.
Ciúme não sou eu, todos não me têm. Fui feita para uma vida de dois, você, para multidões, ora iguais a você, ora iludidas. Então, adeus e até lá e até não e até que um dia...
Zuri.

Camaçari, primavera 2011.

Falta.

Oliver,

Quando o sol morre em chuva, me faltam vermelhos, te sobram fogos.
Quão bem se sentem meus braços ao te envolver na beira das poças. Somente nós ao redor, dentro e fora das águas do nosso ninho.
Mas todo esse mar de vistas e sensações tão logo se vai. O chão, o frio, o verdazul, a casa, nosso amor.
Num minuto sou tua, teu porto, teu calor. No minuto que habita o seguinte segundo, sou uma lembrança embaçada onde nada mais se fita, ou se tem.
A onda luminosa mora no instante que tange o nosso toque, nosso olhar, nossa oportunidade.
Quando finda a madrugada e a explosão é trazida pela nova manhã, nossa história se resume em névoa rosa. Mas as rédeas do tempo é ele quem dá e as nossas vidas se bordam em pausas.
Aparecem aos poucos os loucos e raros momentos em cores e formas dos nossos textos.
Dois caminhos onde tudo é lindo até não ser.
Fora das fontes de lua, passado e olhos sorridentes, dance. Pelos sentidos tresloucados de nossas bocas afora, minha anestesia, dance para mim!

Zuri.
Camaçari, primavera 2011.


Cante, Cindy Lou!



Tainana,

Há outro em mau tom, de lá para cá. Atmosfera carregada de gente que não sabe nas ruas.
Palavras emprestadas a ninguém e o mundo indo, girando em vínculos diversos.
Mas muito se diz no tempo de silêncios e tão pouco se traduz nas palavras concisas de almas que se (des)encontram.
Pra onde a gente vai? Me pergunto. E vem um bom pressentimento dizendo que iremos, com o tempo, nos banhar nas incontáveis águas de felicidade.
Guardemos nossas vidas dos sambas tristes e ruídos de hoje, porque o quem de cada um é tecido pelas ondas dos anos e guiado pelo olhar.
Amanhã terei memórias. Nesse instante tenho um domingo frio, flores e sua ironia lacônica. Amanhã terei crescimento, amor, parte de dúvidas e inteiro da certeza de que, como seu canto em gotinha lilás, Cindy Lou, nossa maturidade vem em camadas.
Cante, Cindy Lou, cante!
Camadas...

Zuri.

Fazendo as pazes, primavera 2011.