"... foi só por um segundo, todo o tempo do mundo, e o mundo todo se perdeu"
Hoje o amor chegou cansado, num abraço de dias, num olhar que se estendeu por horas: quinze minutos.
Abraço de amor não carece de justificativa, não é troca de favores ou anulação de você, de mim, do nosso orgulho.
Abraço de amor, dona, é casa para a gente morar e que o diga o palpitar dos nossos peitos. E que o confirme, não eu, com meus verbos - que são meu princípio e meu fim - ou você, com o silêncio, a precisão ou a precipitação, mas o vento.
O ar voltou a se movimentar. Não há nisso, talvez, um amanhã. Ontem não havia.
Não pode haver. Ontem já não poderia.
E quem sabe?
Tempo...
Amanhã é futuro e terminações de tempos futuros são imperfeitas: não há "depois" fora do reino hipotético.
Você, meu bem, não é hipótese, tampouco eu o sou.
Hipótese é prelúdio, casa, caixinha, pés inchados, crianças... Hipótese é superação, racionalização, saída definitiva do reino da fantasia.
Fantasia?
Como se eu não sou se não a outra metade daquele abraço?
Eu não sou se não a sensação do segundo peito a palpitar, do segundo olho, meio refletido nas suas lentes avermelhadas. Eu não sou se não o segundo meio sorriso, ou sorriso ao meio, o segundo rosto não simétrico, sei lá, o "lado b" dos seus discos de mal gosto - Deus meu, que mal gosto, Moby Dick! -.
Posso não ser um amanhã, como pode você, também, não mais me ser aconchego, mas eu sou a pessoa dos dias de água e isso, nem a natureza pode negar.
Meus maus hábitos e comentários grosseiros - ela aceitou, nunca mais digo aquilos tudos! -, minha mania de comer devagar e meus três furos tortos na orelha, feito a mão por uma garota de treze anos, a tal garota que ainda existe em mim, não mudam o fato de eu ser a segunda boca.
A boca de um momento que me ensinou a sofrer, a não respirar, a me afogar, mas, principalmente, a amar com planos, a ser, em dado momento, feliz, mesmo só, ou feliz em ser duas - "um breve momento de felicidade, não é? pois é, eu sou boa nisso!".
Sim, você é!
Mas é tão mais...
Quisera eu ser e fazer de você apenas um momento, já que não posso costurar nos sonhos um amanhã.
Mas eu quero felicidade em contínuo, sempre que sim, sempre que dia, sempre que sábado, sempre que ano novo, não apenas quando não der mais para segurar. E, acredite, eu seguro. Esta sou eu segurando!
E eu sou a boca para beijos de um segundo, ou de invernos e outonos, de quatro meses, quatrocentos anos, ou nem mais um dia. Eu sou a boca para beijos de língua escrita, falada, cantada desafinadamente e misturada, para o prazer dos ouvidos larísticos, ao seu grave: "entra pra ver...".
Eu sou a boca para beijo de verbo e de olhar, como num estado amante do humano - amante de e por ser aquela que ama, amante de amor que fica, amante de desembarcar em qualquer estação levando comigo, na lembrança e na falta de ar, o meu último, único e mais lindo objeto de desejo. Mas eu também sei ser aquela que ama de desistir - que sabe ser sem você, mas o não pensar no amanhã faz enxergar que o amanhã não vale pelos abraços até ontem inesperados.
Eu sou a segunda boca de fazer ser agora. Ou não.
Eu me retiro.
Um beijo!
Boa noite!
Zuri
17/12/2013
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