sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

sobre o homem da minha vida

"i was blessed because i was loved by you!"

às vezes, as pessoas me perguntam por que eu não gosto do natal, já que sou quem sou e acredito no que acredito...
pois então, fora aquele papo todo de capitalismo, desculpa para consumir e coisa e tal – os males da nossa civilização – eu não gosto do natal há uns 5 anos, porque ele faz a gente querer estar perto de quem a gente ama e eu, infelizmente, já não posso. ao menos, não fisicamente. no resto do ano não é fácil, mas esse dia afoga porque pede corpo no corpo como nenhum outro. sei lá, é a energia de abraçar, mas se não há o segundo corpo...
acho que dezembro todo é assim, não?!
natal mistura meu ouvir clara nunes com os sabores de adolescência. aliás, clara é um deles. bezerra da silva, também, né, meu velho?! risos...
“viola, minha viola”. eu odiava, todo domingo aquilo, aff, mas agora sempre me emociono com a voz horrorosa de inezita!
natal mistura a mais genuína nostalgia a uma crença de que nos veremos no futuro, não sei bem quando, na verdade, quando eu não faço ideia, mas sei onde!

ainda lembro os cheiros, a barba meio falhada, o lado esquerdo do rosto que trazia aquela marca de infância... ainda lembro a cor dos olhos, sempre que vejo os meus: um castanho indeciso, uma coisa meio mel, meio clara, meio escura, meio cheia de graça ou, em dias tristes e no pôr do sol, sem resquícios dela.
é por isso que eu não gosto do natal, porque o homem da minha vida está bem em algum lugar que não ao meu lado, me dando colinho, olhar fulminador – ele só precisava me olhar, nunca precisou encostar a mão em mim – ou me dizendo que o que sinto agora é fase e vai passar, porque todo o resto passa.
ele diria, certamente, para eu ter o que nunca tive: paciência.

“minha filha, tu perde tanto por querer tudo na hora. tenha calma. viva com paciência!”

meu velho, depois de quase trinta eu ainda sou a mesma criança que quer pedalar pela primeira vez sem as rodinhas. lembra a queda? a velha ficou furiosa! e aquele bloco da reforma? você disse pra eu não subir, eu lembro! a cicatriz está aqui, firme e forte, para nunca me deixar esquecer até onde posso subir. eu nem lembro se doeu muito, deve ter doído, para eu ter feito aquele escândalo, mas eu lembro do merthiolate que você passou depois. naquele tempo aquela porra ainda ardia...

você era tão sereno, tão sensato, tão forte! todo mundo te amava! eu queria ter herdado isso tudo, mas só herdei a cor dos olhos. meu bem me disse que são espelhados. diria o mesmo dos seus, porque são de você! acho que meu bem amaria você – claro, afinal, todo mundo te amava! –.

a última vez que nos vimos, em vida de carne, sob aquela luz de u.t.i., você disse, “é dia ou já 'anoiticeu'? aqui é claro o tempo todo, eu nunca sei... você já tá cuidando de você minha filha?” e eu respondi: “vovô, eu te amo!”, porque a resposta para a sua pergunta não seria  a que queria ouvir.

mas eu sobrevivi sem você, do jeitinho que você prometeu.
eu envelheci, eu errei, acertei, eu me apaixonei, desapaixonei, amei de fazer planos, como gente grande, de casinha, muito amor e crianças, mas de tudo que é certo é que um pedaço grande de mim ficou ali, naquela sala, e de lá só sairá quando eu te encontrar de novo!

um dia eu aprendo, vovô, a cuidar de mim e a ter paciência para não perder, mas eu já aprendi que você nem sempre esteve certo, porque nem tudo passa.

você não passou!

“i’m everything i am because you loved me!”

sinto sua falta!

sua menina
manhã de dezembro 
20.12.2013

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