Caitano,
Numa dessas noites charmosas, dos dias que escorregam por
entre os dedos, em tempos de mentes cheias de vazio e rostos decorados com a
futilidade de águas rasas, meu olhar, que nunca os procurou, foi arrebatado
pelos gritos que saltavam do chamado castanho dos teus olhos.
Nesse sequestro rico em luz e cheiros de novidade, meus
milhões de sorrisos encantados foram sensíveis às graça, respeito e sinceridade
daqueles olhos e, de um jeito descuidado, flutuei sobre eles, na tentativa de
expressar a alegria de ter, hoje, comigo um desejo, um aconchego, um amigo e um
belo arranjo misto em emoção e razão.
Naquela noite primeira, corredores e acasos tomaram parte da
direção, mas as cenas seguiram e essas nós fizemos com esperas e iniciativas,
longas conversas, compartilhando segredos e deixando escapar vestígios daquela
criança que ainda existe em nós. Essas cenas, engendramos ousando, arriscando,
vivendo numa mera distração um momento de se gostar.
Daí, então, as horas se acharam perdidas e, nem sei quando,
talvez nunca conheça como, mas foi num desses momentos de distração ou, quem
sabe, na saborosa sucessão deles, que você se tornou tão fácil uma presença
marcante no meu mundo.
Mas os mundos, meu desejo, têm sede das águas de controle,
do balancear e de mistérios...
Resta-nos, então, o romantismo ou a falta dele, a esperança
ou sua ausência, mas, sem sombras, a doçura e a ilação de que é no constante
treinamento da vida, nessa busca incessante por um equilíbrio inalcançável que
descobrimos o prazer da trajetória e sentimos o caminho revelar sutilmente esse
prazer através das cores exaladas nos encontros da vida, nos gestos e boas
companhias, nas diferenças tão iguais, nos gostos, em tudo o que faz de nós o
que somos, e, quando as cores finalmente celebram, é hora de se entregar à
vibração e deixar fluir.
“Amanhã é tarde demais”
Zuri.
Camaçari, outono 2010
Vontade das recaídas inúteis, inevitáveis. As cores, as flores, a vida do seu texto pede isso. Eu peço também, não desse jeito, porque sua escrita é diferente, mas não menos encatadora. Lindo.
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